Também resolvi postar sobre meu domingo de exercício de democracia. Ao contrário de minha amiga de blog e de vida, andei poucos metros a pé para exercer esse direito obrigatório. Não sei se seria melhor ser opcional. Talvez justamente aquelas pessoas que tem alguma consciência ficassem em casa, cansados de tantos erros, de tantas promessas e mentiras. Talvez aqueles com interesses pessoais duvidosos fossem os que se dispusessem a enfrentar trens, ônibus ou alguns passos para ir às urnas eleger àqueles que lhes fizeram promessas escusas.
Mas meu domingo de eleição começou justamente no momento que acordei, com a conversa de duas vizinhas. E essa conversa ainda ecoa em minha mente.
- Bom dia, disse uma da janela. Ao que a outra, na rua respondeu:
- Bom dia! E aí, é candidato X?
- Não, vou votar no Y! Eu quero o bem de nossa cidade.
- Eu quero o que é bom pra mim. Vou votar no X, arranjei emprego em duas escolas desde setembro.
- Que bom, passou no concurso?
- Eu não. Fui contratada. Vou garantir meu emprego. Quero ver o meu lado.
- Mas eu vou votar no Y. Quero o que é bom pra todos.
A conversa foi mais ou menos assim. Mas as frases "eu quero ver o meu lado" e "vou garantir meu emprego" não saem de minha cabeça, palavra por palavra.
À noite foi confirmada a vitória, com diferença de 1%, do candidato X. Assim como esse mulher, mais pessoas pensaram "no seu lado". Não sei se o Y seria tão melhor. Mas com certeza, quando Y foi prefeito construiu muito mais escolas, havia muito menos assaltos e fez muito mais projetos que agora, com o candidato reeleito X. Não quis colocar nomes porque conheço várias cidades com nomes de candidatos que caberiam nas incógnitas X e Y. E existem muitas conversas como a que eu ouvi. "Estou vendo o meu lado". Um emprego temporário na prefeitura, ocupando a vaga de alguém capacitado, que fez concurso, que perdeu dinheiro, tempo e estudo para fazer uma prova.
Existem muitas pessoas que pensam ver o seu lado. Mas quando são assaltadas nas ruas, por falta de segurança, também deveriam lembrar-se que votaram vendo seu lado. Quando esperam 4 meses pelo resultado de um exame, também deveriam lembrar-se que votaram vendo seu lado. Quando ficam 6 meses sem uma gota d'água, tendo que comprar de caminhões-pipa, deveriam lembrar-se que votaram vendo seu lado.
As pessoas tem andado olhando o próprio umbigo, e assim não percebem o caminho que estão tomando. Não enxergam o precipício logo à frente. Talvez no fim do outro caminho também haja um precipício. Mas olhando para os lados, para o alto e para trás é possível admirar o caminho, desviar de lamaçais, estender a mão a quem está caindo ali ao lado, ou até receber ajuda de quem está alerta. Olhando para todos os lados, ao menos podemos parar quando chegamos à beira do abismo.
Quem anda olhando pro próprio umbigo provavelmente vai dar de cara numa parede, vai tropeçar numa pedra, ou ser atropelado no meio da rua. Talvez ainda culpe a parede, a pedra ou o motorista.